EXTENSÃO

Projeto PÉS completa 5 anos e soma mais de cem atividades realizadas no país e no exterior

 

Marina Anchises e Rafael Tursi dançam tango em frente ao Museu Nacional na Esplanada dos Ministérios
Marina Anchises e Rafael Tursi dançam tango em frente ao Museu Nacional. Foto: Trilha Sapatos Esportivos

 

 

“É preciso asas para voar? É preciso pés para dançar?”, em tom descontraído, Rafael Tursi, idealizador e coordenador do Projeto PÉS, propõe a reflexão que ele fazia a si mesmo quando começou a estudar uma proposta de teatro-dança para pessoas com deficiência (PCD). O que inicialmente era destinado a um público específico, ganhou novas abordagens e hoje é aberto a qualquer interessado, somando, no momento, cerca de 24 integrantes, entre voluntários e alunos.

 

Entre as primeiras participantes do PÉS está Marina Anchises, 27 anos, uma entusiasta da dança. “Quando estou dançando, esqueço do mundo. É a melhor hora pra mim”. No palco, sua atuação favorita é a cena em que dança tango. Para ela, o grupo significa trabalho e diversão. "Um lugar onde faço muitos amigos e  tenho uma boa convivência”.

 

Marina possui dificuldade na coordenação motora dos membros superiores, resultado de paralisia cerebral, que não a impediu de dançar, tampouco de desenvolver seu potencial intelectual. A estudante do quinto semestre de Museologia na Universidade afirma que “a UnB abriu um horizonte maior de conhecimento, de oportunidade e de saber”.

 

HISTÓRIA – A vontade de trabalhar com essa abordagem surgiu quando Tursi acompanhou a reabilitação da amiga Maiara Barreto modelo e atleta que representa o Brasil nos Jogos Paralímpicos Rio 2016 , que ficou tetraplégica após um acidente de moto. Durante o tratamento, ele observou que o trabalho com os pacientes geralmente era feito no campo da Educação Física ou da Fisioterapia. Decidiu, então, pesquisar uma opção por meio da dança e do teatro, dedicando-se dois anos para estudar o assunto, período em que concluía o bacharelado e prosseguia para a dupla habilitação com a licenciatura em Artes Cênicas.

Roges Moraes realiza uma parada de mão na cena Wooh do espetáculo klepsydra
Roges Moraes em cena. Foto: Hugo Veiga/ Parceiro do PÉS

 

Em 2011, com o apoio da professora Fabiana Marroni, a pesquisa de Tursi deu origem a um projeto de extensão, semente do PÉS. "Quando iniciamos, tive meu primeiro choque: as pessoas com deficiência raramente chegam à Universidade", conta Tursi. De acordo com ele, à época havia apenas um professor, um aluno e um funcionário com deficiências cadastrados no sistema da UnB. Assim, decidiram abrir o projeto para toda comunidade. Era o início das atividades do PÉS, com cinco participantes de diferentes localidades de Brasília.

 

A iniciativa obteve êxito, virou tema de projetos de graduação e de mestrado e repercutiu para além do ambiente acadêmico. Hoje, o PÉS soma mais de cem atividades realizadas, entre apresentações, debates em escolas e empresas do Distrito Federal, duas palestras em Portugal para executivos de uma organização global e outras duas para petrolíferas no Rio de Janeiro, além da participação em dezenas de mostras, congressos e encontros de Artes, Educação Física, inclusão social e Psicologia no país.

 

Com o desenvolvimento dos participantes durante as aulas, surgiu a necessidade de propor um novo desafio. Decidiram montar o primeiro espetáculo do grupo, o Klepsydra, estreado em novembro de 2011, no anfiteatro 9, da UnB. O nome da apresentação refere-se ao instrumento de origem egípcia, também conhecido como relógio de água, utilizado na antiguidade para medir o tempo.

 

“Quando as pessoas iam assistir aos nossos ensaios, às vezes queriam ver acrobacias mirabolantes, mas, quando chegavam lá, percebiam que usávamos uma aula inteira para ensinar um pequeno movimento. Então, fizemos a analogia com o termo, pois uma gotinha da Klepsydra é apenas uma gota d’água, mas de gota em gota tem-se um longo tempo decorrido. É assim na aula, de esforço em esforço temos um grande resultado”, explica Tursi.

 

Roges Moraes, 21 anos, é cadeirante e protagonista de uma das cenas que impressiona o público no espetáculo. Ao som da música The way you Make me Fell, de Michael Jackson, entre giros e movimentos,ele realiza algumas acrobacias. Chega a 'plantar bananeira', uma parada de mão sobre sua cadeira de rodas. O estudante explica que a atuação seria difícil para pessoas com ou sem deficiência e acredita que “aqueles que entram com algum preconceito, achando que somos incapazes de fazer algo, ficam maravilhados quando assistem à apresentação. O PÉS é uma forma de incentivo, de levantar a cabeça e mostrar que você realmente consegue fazer".

 

 

CONQUISTAS  – Em 2012, com a expansão do projeto e suas vertentes de pesquisa, o PÉS ganhou dois prêmios: Melhor Trabalho Nacional de Cultura e Lazer para Pessoa com DeficiênciaeMelhor Trabalho Nacional de Educação Inclusiva do 5o Congresso Nacional de Diversidade e Inclusão (CONADI). 

 

Em 2013, foi lançado o primeiro curta-documentário do PÉS, intitulado Por que você dança?.Filmada em diferentes lugares de Brasília, a obra traz a participação de transeuntes, alunos de dança e integrantes da iniciativa, que compartilham a motivação pessoal que os levam a dançar. No mesmo ano, o grupo estreou seu segundo espetáculo, Grão(s).De acordo com Tursi, uma nova etapa de desenvolvimento do grupo, em que os alunos tiveram maior imersão no universo do teatro, se aprofundando em aspectos como figurino, cenário, iluminação e interação em cena.

 

O espetáculo mais recente é o Similitudo(2015), resultado de uma fusão do grupo inicial com os alunos da segunda etapa de cursos do projeto. "É o espetáculo que, mais claramente, conseguimos mesclar a participação de pessoas com e sem deficiência em cena, sem que um seja apenas apoio ou suporte do outro", explica Tursi. Há dois meses o grupo estreou Ludo, exercício aberto ao público com a participação da camerata musical Îandé Ensemble (formada por alunos do curso de Música da UnB). A proposta é uma cena de improviso ao vivo entre os participantes dos dois grupos, sendo que os integrantes não se conheciam previamente.

 

BASTIDORES  Os resultados dessa meia década de trabalho remontam a uma trajetória de rica aprendizagem. “As primeiras aulas foram muito difíceis, estava aprendendo a trabalhar com esse público. O começo foi só de observação, de conhecer as possibilidade e as limitações de cada aluno. A partir daí, por meio da experimentação, desenvolvi minha própria metodologia", conta Tursi.

Integrantes e familiares comemoram apresentação junto com a platéia no Teatro Sesc Paulo Autran
Integrantes do PÉS no Teatro Sesc Paulo Autran, Taguatinga Norte - DF. Foto: Foto: Hugo Veiga / Parceiro do PÉS

 

Utilizando objetos ludo-pedagógicos, como massa de modelar, barbante, balão e corda, o professor desenvolveu o que tem chamado de Metodologia Possível, na qual o aluno é a base de sua própria avaliação, por meio de uma relação entre pontos de eficiência e pontos de trabalho. Sua proposta é trabalhar duas vertentes: uma pedagogia do movimento, em que aborda a consciência corporal e a percepção de peso, espaço e tempo, nos movimentos realizados pelo grupo; e uma maior alfabetização estética, envolvendo mais diretamente a relação da dança e do teatro com a recepção do público.

 

Mais adaptado à vivência da sala de aula, a grande dificuldade hoje, segundo Tursi, é outra. "Muitas vezes somos vistos como projeto social, projeto terapêutico, projeto fisioterapêutico. Eu sei que ele passa por esses espaços, pois eu trabalho com uma camada da sociedade minoritária. Mas acima de tudo é um projeto artístico e deve ser visto dessa forma”, compartilha.

 

Entre os obstáculos encontra-se também o financiamento das atividades, já que muitas vezes as despesas são pagas com recursos do próprio professor, de voluntários ou dos pais dos alunos. Os desafios existentes não impedem Tursi de projetar novas conquistas. "Temos o sonho de transformá-lo no Instituto Pés de Arte para Pessoas com Deficiência”, conta. “O PÉSé um lugar de muita troca. É uma grande aposta de vida”.

 

A professora Marroni compartilha que não imaginava que a proposta teria uma vida tão longa e frutífera: "Esse tipo de iniciativa não se sustenta se não tiver uma comunidade atuante. Para existir precisa do apoio dos familiares e de uma série de outras parcerias”. A docente enfatiza que é importante que as instituições abram seus espaços e deem visibilidade a esse tipo de proposta para que o público tenha contato com outras estéticas e poesias. "Sou apaixonada por esse projeto e tenho orgulho de ter podido participar de seu início”, confessa a docente.

 

SERVIÇO  As aulas do projeto ocorrem às terças e quintas, das 19h30 às 21h, no Departamento de Artes Cênicas da UnB, gratuitas e abertas à comunidade. Pessoas e instituições interessadas podem fazer contato pelo telefone (61) 98119.9443, pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo., pelo Facebook ou pelo site.