RECONHECIMENTO

Gustavo Lins Ribeiro receberá título da American Anthropological Association, dado pela primeira vez a alguém fora da Europa e dos EUA

Gustavo Lins Ribeiro hoje reside no México, mas continua atuante na antropologia brasileira. Foto: Arquivo Pessoal

 

Gustavo Lins Ribeiro, professor aposentado do Departamento de Antropologia (DAN), tem trabalhado ao longo de sua carreira para promover a circulação de conhecimento para além dos principais eixos da antropologia mundial. Graduado e mestre pela Universidade de Brasília, o professor é o recipiente de 2021 do prêmio Franz Boas Award for Exemplary Service to Anthropology  (Franz Boas de Contribuição Excepcional à Antropologia, em tradução livre). Oferecida pela Associação de Antropólogos Estadunidenses (American Anthropological Association), a honraria será entregue em cerimônia prevista para novembro, nos Estados Unidos.

 

Lins Ribeiro trabalha há mais de 20 anos atuando para dar mais visibilidade às antropologias produzidas fora dos Estados Unidos, da Inglaterra e da França, centros hegemônicos da área. "Esse movimento em defesa da diversidade interna da disciplina é algo cuja relevância todos antropólogos entendem", afirma. 

 

O professor tem proposto, além de contribuições teóricas para o campo, canais democráticos e fluidos de articulação entre as diversas antropologias nacionais. Em 2004, por exemplo, quando era presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), organizou uma reunião com 14 presidentes de outras associações de todo o mundo.

 

O encontro resultou na fundação do Conselho Mundial de Associações Antropológicas, do qual foi o primeiro presidente. "Hoje o conselho é uma potência na política global da disciplina e conta com mais de 50 associações", conta o emérito, que também foi vice-presidente por quase dez anos da União Internacional de Ciências Antropológicas e Etnológicas.

 

Doutor pela City University of New York, o docente entrou nos quadros de sua alma mater, a UnB, em 1988, e foi vinculado como professor efetivo, por 26 anos, ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), onde hoje atua como colaborador. Ele também publicou 23 livros e mais de 150 artigos em seis línguas, orientou 16 teses de doutorado, 18 dissertações de mestrado e 24 monografias de conclusão de curso. Lins Ribeiro recebeu ainda a Medalha Roquette Pinto, da ABA, pela significativa contribuição à antropologia brasileira.

 

Confira abaixo a entrevista da Secretaria de Comunicação (Secom/UnB) ao antropólogo Gustavo Lins Ribeiro:

 

O que essa premiação representa para o senhor?

Uma excelente notícia, que me deixou muito orgulhoso e feliz. Sou o primeiro antropólogo fora dos Estados Unidos e da Europa a receber essa distinção desde que o prêmio foi estabelecido em 1976. Orgulho-me de passar a fazer parte de uma lista que inclui nomes de antropólogos e antropólogas tão distinguidos, como Margaret Mead, Sol Tax, George Foster, Claude Lévi-Strauss, George Stocking, June Nash, Sydel Silverman e Sidney Mintz, por exemplo.

 

Como se sente sendo o primeiro brasileiro recipiente do prêmio Franz Boas?

Para mim, o prêmio significa que tive a sorte de trabalhar em uma comunidade, como a de antropólogos brasileiros, vibrante, comprometida com a mais alta qualidade acadêmica, com o que acontece em todo o mundo e, mais ainda, no Brasil. Aprendi e continuo aprendendo muito com os meus colegas de Brasília e de todo o país.

 

Como a carreira na UnB contribuiu para a indicação à honraria?

A UnB é minha primeira alma mater. Fui seu aluno de graduação em Ciências Sociais (1972-76) e de mestrado (1977-80). Envolvi-me na sua vida política desde a graduação e, por isso, no mestrado, em 1977, fui preso e processado pela ditadura militar em uma greve estudantil daquele ano. Ao mesmo tempo, tive a sorte de ter tido excelentes professores, a maioria se tornaria meus colegas mais tarde.

 

As ciências sociais da UnB são fortíssimas, de ponta. Basta ver as avaliações da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] das pós-graduações de Antropologia, Ciência Política, Sociologia e Relações Internacionais. Tudo que você quer é ter um ambiente acadêmico sofisticado, engajado, com redes nacionais e internacionais; colegas generosos para poder desenvolver e ampliar seus interesses de pesquisa e sua imaginação; mais funcionários comprometidos com a instituição e ótimos estudantes.

 

Essa sorte eu tive no Departamento de Antropologia, no Instituto de Ciências Sociais e em outros âmbitos da vida acadêmica e social no nosso lindo campus Darcy Ribeiro. Note, a UnB é fundada por um antropólogo!

 

Qual experiência foi mais marcante em sua trajetória profissional?

Apesar de serem muitas, destacarei apenas algumas. Há alguns anos, estava por entrar em um auditório para dar uma conferência no México e um jovem de uns 19 anos chegou com uma cópia do meu livro, Post-imperialism, e me pediu para autografá-lo. Enquanto o fazia, ele disse: esse livro mudou a minha vida. Pensei, naquele momento, que meu esforço intelectual havia valido a pena.

 

Ser aprovado em concurso para professor da UnB, em 1988, foi uma experiência marcante. Outra foi ganhar, em 1989, o prêmio de melhor tese de doutorado da Associação Brasileira de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) – que décadas mais tarde eu viria a presidir. Ter recebido a Medalha Roquette Pinto de Contribuição à Antropologia Brasileira, da ABA, em 2006, é uma grande honra.

 

Mais recentemente, me emocionou bastante dar a conferência de abertura do Congresso Mundial de Antropologia, realizado em Florianópolis, em 2018, ocasião em que a União Internacional de Ciências Antropológicas e Etnológicas me transformou em seu membro honorário. 

 

Quero destacar também outro livro, Pensando o Capitalismo Contemporâneo, que vários ex-orientandos publicaram em 2016 em minha homenagem. Na UnB, senti que ser professor é um privilégio que tenho vivido intensamente. Por último, está a emoção profunda de ter sido nomeado, em 2020, Professor Emérito da UnB, por iniciativa do nosso Departamento de Antropologia.

 

Quais perspectivas tem para o futuro da nossa sociedade, pensando pelo viés da potencial contribuição da antropologia para os tempos que ainda virão?

Para responder realmente a esta pergunta, teria que escrever um livro! Vou apontar alguns temas preocupantes. Primeiro, temos que partir da posição de saber que a visão antropológica do mundo é bastante generosa. Ela se baseia fortemente no reconhecimento que diferença e diversidade são patrimônios da humanidade e que o problema que nos trouxe até o cenário complicado em que nos encontramos chama-se desigualdade, exploração e destruição desenfreadas da natureza e da vida humana.

 

Começo com este tema porque vejo uma retomada descarada de preconceitos na sociedade brasileira e em várias outras. Esse fato requer uma atenção perene no meio intelectual e político, especialmente no que diz respeito às suas consequências mais agudas, como o fascismo, o racismo, a homofobia, o machismo e o preconceito de classe. 

 

Ao mesmo tempo, estamos diante de várias possíveis guinadas civilizatórias provocadas pela cada vez mais provável hegemonia chinesa internamente ao sistema mundial, pelas mudanças nas formas de comunicar trazidas pela internet, pela inteligência artificial e pelo antropoceno [a era do homem, período mais recente da história da Terra, marcada pela ação humana].

 

Este pacote pesado impacta nossas concepções de pessoa, de vida, de futuro, de sociedade, política e economia, do que é e não é humano. O pensamento antropológico está amplamente habilitado para posicionar-se de forma instigante neste cenário produtor de diversas distopias e utopias conflitantes.

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