PÉ EM CASA

Estudantes criam jogos e cadernos de pintura para divertir quem está no isolamento social e, ao mesmo tempo, promover a educação patrimonial

 

Alguns exemplos de atividades elaboradas pelos estudantes do Pé em Casa: caderno de colorir Pé para Pintar (e as mãos de um garoto de 5 anos residente em Natal/RN); jogo de tabuleiro Pé no Plano (abaixo, esquerda) e jogo da memória (abaixo, direita). Fotos: divulgação/Pé em Casa

 

Criado com o objetivo de dar a estudantes a oportunidade de conhecer arquitetura e urbanismo do Brasil, por meio de viagens anuais a diferentes cidades, o projeto de extensão Pé na Estrada – da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília – teve que ser adaptado neste contexto de combate ao novo coronavírus.

 

Com o isolamento social, os membros do projeto encontraram uma saída criativa para seguir aprendendo e colocando em prática ensinamentos da sala de aula: transformaram o Pé na EstradanoPé em Casa, e passaram a desenvolver atividades lúdicas voltadas para o público infantojuvenil.

 

Napágina do grupo, é possível baixar jogos da memória e de tabuleiro, cadernos para colorir, indicações de leitura e até visitas virtuais a determinados pontos turísticos. Tudo feito pelos estudantes da UnB para todas as famílias que agora estão em casa em isolamento social.

 

“Foi uma adaptação para esse momento de isolamento social das atividades de educação patrimonial que já desenvolvíamos”, explica a professora Ana Paula Gurgel. “Eu mesma sou mãe e, como muitas outras, sentia necessidade de pensar atividades que fossem divertidas para os pequenos, e que, ao mesmo tempo, agregassem conhecimento. Além disso, este ano comemoramos os 60 anos de Brasília e as atividades fazem parte da nossa homenagem à capital.”

 

Segundo a docente, atualmente os 17 estudantes desenvolvem trabalhos sobre as cidades já visitadas anteriormente pelo grupo e sobre Brasília. “Mas os alunos têm plena liberdade para decidir quais serão foco, e como e quando as atividades serão realizadas”, pontua Ana Paula.

Membros atuais do projeto de extensão da FAU/UnB. Foto: divulgação/Pé na Estrada

 

“Fizemos umas 'chuvas de ideias' nas primeiras reuniões, quando diversas atividades foram pensadas como possíveis de serem desenvolvidas. Cada aluno, ou grupo deles, foi se organizando para desenvolver aquelas com que mais se identificou. Semanalmente, fazemos duas reuniões virtuais para acompanhar o desenvolvimento das propostas e organizar o cronograma de lançamento das atividades no site e nas redes sociais”, conta a professora Ana Paula.

 

Ela acrescenta que outras ideias surgiram com o tempo, como a de fazer uma semana especialmente dedicada a Minas Gerais, estado que receberia o grupo no início de maio, se não houvesse a pandemia do novo coronavírus.

 

“Ou seja, os alunos são protagonistas no desenvolvimento das atividades. O meu papel é de assessoria ao conteúdo mais acadêmico (indicação de bibliografia, por exemplo) e revisão final das propostas”, esclarece.

 

DE ALUNOS PARA ALUNOS – No projeto, Juliana Albuquerque, que está no oitavo semestre do curso, exerce a função de coordenadora geral. É ela a responsável por cuidar de todos os prazos internos, fazer a comunicação com a direção da faculdade e com as professoras coordenadoras – atualmente, as docentes Ana Paula Gurgel e Gabriela Tenório –, além de coordenar as reuniões e cuidar para que a equipe como um todo mantenha a organização inclusive virtual do projeto (e-mail, arquivos na nuvem e postagens em redes sociais).

 

“Dentro do projeto, desde a sua concepção, prezamos pelo protagonismo e independência dos discentes. O nosso lema é ‘de alunos para alunos’. É tudo feito com bastante diálogo, nossa liderança é horizontal e todos têm o mesmo peso de voto”, ressalta Juliana.

 

“Tem uma coisa que eu adoro dizer quando preciso explicar qual é o meu papel hoje no projeto: comparo o Pé a uma grande orquestra, composta por diversos musicistas e seus instrumentos. Cada um tem um papel importantíssimo para a execução de cada umas das peças. A coordenadora geral é dependente e corresponsável por reger todas as atividades e vertentes do projeto”, elucida.

Amora Andrade e Juliana Albuquerque (segunda e terceira da fila, respectivamente, da esq. para dir.) com outros membros do projeto em dia de visita à quadra modelo de Brasília (308 Sul). Foto: divulgação/Pé na Estrada

 

Juliana está há dez meses na coordenação, mas já soma dois anos e oito meses no Pé na Estrada e afirma que o projeto costuma ser marcante na vida dos participantes.

 

“Sinto que o é uma oportunidade de vivenciar experiências sensacionais para a minha formação como arquiteta e urbanista, como cidadã e pessoa. Me apaixonei pelo projeto logo no meu primeiro semestre, quando participei de uma atividade denominada PontaPé no Campus, que apresentava os edifícios do campus [Darcy Ribeiro] para os calouros com um anfitrião, na ocasião o professor Eduardo Rossetti. Ele conduzia o roteiro adicionando fatos históricos e comentários arquitetônicos introdutórios para as futuras arquitetas e futuros arquitetos. A partir dali, comecei a participar das viagens anuais e durante o primeiro ano o meu amor pelo projeto só cresceu”, rememora a estudante.

 

Quanto à coordenação do grupo, Juliana considera que este momento de atividades remotas tem sido um desafio. “As reuniões calorosas dos 19 membros por videoconferência marcavam minha rotina. Com o tempo, senti grandes avanços em nossas conversas e em toda a facilidade de comunicação remota. Esse tem sido um momento também para refletir sobre tempo de deslocamento – temos membros que levavam até duas horas de transporte na volta para casa. Entre outras coisas, muitas reflexões vão marcar profundamente nossas condutas futuras”, acredita.

 

Amora Andrade, do quarto semestre da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, veio do Piauí para viver a vida universitária da capital federal. Satisfeita com todo o aprendizado do curso, ela valoriza também todo o conhecimento que adquire no projeto de extensão, que afirma ser o carro-chefe da FAU, com as viagens proporcionadas – e, atualmente, suspensas devido à pandemia. Mesmo hoje, com a adaptação do projeto para o Pé em Casa, ela afirma que a experiência é gratificante.

 

“Já era muito legal a faculdade e esse projeto tem uma aceitação muito grande lá dentro, os alunos gostam muito da proposta da viagem, que tem muitos inscritos todos os anos. Sempre que fazemos as visitas guiadas para as pessoas de fora da comunidade da UnB são bem-aceitas, então estamos sempre felizes por estarmos conseguindo levar esse projeto. É uma adaptação muito nova essa de ter que estar em casa 24 horas por dia, ter que arranjar coisas para fazer. Então, desenvolvemos jogos lúdicos educativos e tem atividades para todas as faixas etárias, como o Pé para Pintar, o Pé no Plano”, enumera Amora.

 

Pé no Plano é o jogo de tabuleiro, com perguntas e respostas sobre o Plano Piloto, criado por ela e mais três amigos do projeto.

 

“Estamos focando muito na educação patrimonial, porque através desses jogos o público vai entender um pouco mais e ter conhecimento sobre a arquitetura de Brasília. A pessoa vai ter a memória daquela obra arquitetônica e já vai estar intrínseco que aquela obra tem valor patrimonial. O Pé no Plano, por exemplo, tem o tabuleiro no formato do Plano Piloto. Também trazemos o urbanismo, além da arquitetura, nos nossos jogos”, detalha Amora.

 

“Está sendo muito importante e muito gratificante também o feedback que temos recebido. E agora com o Pé em Casa, nesse contexto de pandemia, recebemos o relato de vários pais mostrando o Pé pra Pintar pintado. Só de saber que conseguimos atingir realmente o público que queríamos é muito gratificante”, conclui a estudante. “Além do mais, é importante até pra gente, pra nossa saúde mental, também estar em alguma atividade nessa época.”

Estudantes do Pé na Estrada na viagem a São Paulo, em 2018. Fotos e montagem: Julia Lopes/Pé na Estrada

 

HISTÓRICO –OPé na Estrada é um projeto de extensão da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB que busca estimular novas vivências dos espaços estudados em sala de aula, provocar um novo olhar e aumentar o conhecimento e o repertório dos discentes.

 

As atividades do projeto proporcionam ao aluno a experiência prática, a fim de despertar o senso crítico acerca da produção arquitetônica e das ações para preservação da memória das cidades brasileiras.

 

Idealizado em 2011 pelos professores Elane Peixoto e Ricardo Trevisan, o projeto levou inicialmente os estudantes a Goiânia (GO). De 2014 para cá, houve viagens a Curitiba (PR), Belo Horizonte, Inhotim e Ouro Preto (MG), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Belém (PA), São Paulo (SP), Recife e Olinda (PE). O próximo destino – que seria em 2020, mas foi adiado – ampliará o roteiro realizado em 2015 em Minas Gerais, com visita a outros pontos históricos.

 

“Muitas outras cidades podem ser destino, temos muito a aprender com as diversas realidades do nosso imenso país e até mesmo de outros países. Pessoalmente, eu gostaria muito de levar os alunos para conhecer a realidade latinoamericana, que embora esteja tão próxima geograficamente é por vezes ignorada em detrimento aos exemplos europeus ou norte-americanos”, declara a professora Ana Paula Gurgel.

 

SELEÇÃO – Podem participar do projeto alunos de graduação de Arquitetura e Urbanismo da UnB. A chamada para novos membros é feita anualmente, para ocupar as vagas daqueles que se desligaram. Os cargos vagos são divulgados nas redes sociais do Pé na Estrada e da FAU, e a primeira etapa da seleção, que não é eliminatória, é o preenchimento de um formulário de demonstração de interesse.

 

A segunda etapa é uma reunião com todos os interessados, em que a equipe apresenta o projeto e todas as funções a serem desenvolvidas, e em seguida escuta as motivações de cada interessado.

 

Os que não podem ingressar na equipe no momento da chamada são incentivados a participar das outras atividades do grupo, como viagens, visitas guiadas, entre outras. “Afinal, a gente tenta proporcionar ao máximo a integração e a troca de experiências nas atividades”, resume a coordenadora Juliana Albuquerque.

 

Vale destacar que nas viagens há cerca de 40 vagas para os estudantes da FAU. Já no grupo regular, geralmente, há aproximadamente 15 membros.

 

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